A Participação de Arnaud de Pontac do Ch. Haut Brion na famosa classificação de 1855

Muito se fala na classificação de 1855 dos vinhos do Médoc e como ela foi importante para o marketing dos vinhos daquela região, mas poucos cursos ou livros de vinhos falam a respeito de como a lista de vinhos foi estabelecida. Muitos sabem que a classificação dos 60 Chateaux se deu em razão do preço dos vinhos, dividindo-os em cinco níveis, sendo que a única alteração nessa classificação aconteceu em 1973 quando o Château Mouton-Rothschild passou de 2º cru para 1º cru.

A outra parte da história, que poucos conhecem, se iniciou em 1666, quando Londres se recuperava do grande incêndio que destruiu a capital inglesa. Neste período, Bordeaux possuía dois clientes muito importantes: os holandeses, que compravam quase todo o estoque dos vinhos mais baratos de Bordeaux para enviar para as suas colônias mundo a fora (isto resultou no uso do enxofre nos vinhos, sobre isto falamos em outro post) e os britânicos, que tinham especial predileção pelos vinhos mais caros, já que as viagens de navios de Bordeaux para a Inglaterra eram bem mais rápidas e os vinhos chegavam mais sadios ao seu destino. Os britânicos já tinham entendido que determinadas comunas de Bordeaux produziam vinhos de melhor qualidade que outras e era cada vez mais comum que eles escolhessem o vinho de acordo com a comuna de origem, como por exemplo, Paulliac, Margaux, Pessac, entre outros.

Em 1666, Arnaud de Pontac, o proprietário de Haut-Brion, enviou seu filho para a capital Inglesa a fim de estabelecer uma taberna (como uma loja de vinhos) conhecida como The Pontac’s Head que serviria como uma vitrine para o vinho de sua propriedade. A taberna e o vinho viraram moda entre a classe média de Londres e a identidade do seu produtor começou a ganhar maior importância. Ao final do século XVII, já não se pedia mais um Pessac, agora os consumidores procuravam por um Haut-Brion.

O Château Haut-Brion não foi a única propriedade que se beneficiou deste “conhecimento da marca” entre os consumidores britânicos. Três outras propriedades também construíram da mesma forma sua identidade: Château Margaux, no município de mesmo nome, Château Latour e Château Lafite, situados em Pauillac.

Com a fama cada vez maior destes quatro produtores, seus vinhos passaram a ser mais procurados que quaisquer outros vinhos de Bordeaux e com isto os preços dos vinhos destas quatro propriedades chegaram a um nível de preço que nenhum outro produtor de Bordeaux havia chegado antes.

Juntos, Ch. Haut-Brion, Ch. Margaux, Ch.Latour e Ch. Lafite foram agrupados em sua própria categoria comercial, o que veio a ser conhecido como os “First Growths” ou “Premiers Crus”.

Em meados do século XVIII, produtores de outras comunas bordalesas, inspirados nos produtores “1° Crus” começaram a investir em melhorias na qualidade de seus vinhos visando alcançar os consumidores da elite britânica. Assim, um novo grupo de propriedades conseguiu criar um reconhecimento semelhante para os seus vinhos no mercado inglês, embora nunca tenham atingido preços tão altos quanto os que os quatro alcançaram.

Cerca de doze vinhedos destas propriedades foram agrupados em uma nova categoria de preço, um pouco mais baixo e tornaram-se conhecidos como “Second Growths” ou “Deuxièmes Crus”.

No momento em que Thomas Jefferson chegou em Bordeaux, na primavera de 1787, este sistema cresceu e ganhou mais uma categoria comercial, definido de “Third Growths” ou “Troisièmes Crus”. Esta nova categoria de vinhos, era formada por propriedades que estavam começando a se libertar de seu anonimato e ainda não tinham alcançado a mesma fama comercial dos quatro “1° Crus” e dos “2° Crus”, então, seus preços eram mais baixos.

Na década de 1820 essa tendência continuou com a criação de uma quarta categoria comercial “Fourth Growths” ou “Quatrièmes Crus”. No início de 1850, havia então, cinco classes bem definidas nesta hierarquia comercial, compreendendo cerca de 60 produtores de vinho.

Foi assim que a estrutura do sistema de classificação comercial de 1855 tomou forma.

 

Texto By Wesley Moreira